Crianças: a saudável não-obediência

 
KATIA MARKO

Que ocorre em comunidades que assumem cuidado coletivo dos filhos e tentam superar possessividade, ultra-proteção e autoridade arbitrária

Esta semana recebemos a mais nova moradora da Comunidade Osho Rachana. Chegou Vitória, a terceira criança a nascer no sítio. A primeira foi Felipe, há dois anos. Caetano está com cinco meses. Também vivem conosco minha filha, Alice, Rishi (ambos com 7 anos) e Amanda com 3. E os pré-adolescentes Mariana, com 12 anos, e Pedro, com 14. Além do Téo, Diana, Amanda e Júlia, filhos de moradores que vêm nos finais de semana.
São crianças muito especiais. Na vida em comunidade, a relação pais-filhos se dilui. Continua a ser importante e necessária, mas são tantas pessoas para amar e trocar que a referência é compartilhada. Um terreno fértil para o desenvolvimento das potencialidades dos pequenos. Segundo o mestre indiano Osho, o ser humano nasce como uma semente, ele pode se tornar uma flor, ou não. “Milhares de pessoas decidem não crescer. Elas permanecem sementes, nunca se tornam realidade. Não sabem o que é auto-realização. Vivem totalmente vazias, morrem totalmente vazias”.
Exercitar a não-possessividade e relacionar-se com respeito e reverência é uma arte. Principalmente com as crianças, estes seres tão cheios de vida, amor realmente incondicional e criatividade. A criança aprende sobre a vida vivendo-a. Não podemos ensinar a criança como viver, mas lhe proporcionar o ambiente adequado para que desenvolva o seu próprio conhecimento.
No livro Prazer, uma Abordagem Criativa da Vida, o médico psiquiatra Alexander Lowen apresenta uma abordagem bastante diferente de “educação”. Segundo ele, à medida que os bebês crescem, inevitavelmente entram em conflito com os pais. “Mas imaginemos que a criança possua uma natureza diferente, que ouça tudo o que sua mãe diz e siga ao pé da letra suas ordens. Se isso ocorrer em todos os níveis, como aprenderá a pensar? Não terá necessidade de pensar, uma vez que a mãe sabe o que é melhor para ela. Não terá necessidade de aprender, pois a mãe irá prever todos os problemas e contorná-los. Não adquirirá nenhum conhecimento, pois dele não tem necessidade. Felizmente, nenhuma criança normal nasce com tal disposição, pois acabaria idiotizada irremediavelmente”.
Ainda, segundo Lowen, todas as crianças passam por fases negativas no curso do seu desenvolvimento. Entre os 18 meses e os dois anos dizem não a muitas ordens dos pais. Esse “não” expressa a consciência em crescimento para que possa vir a pensar sozinha. “É inumano o pai ou mãe que não aceita seu filho tal como ele é e tenta moldá-lo segundo a imagem, que tem em sua mente, de como a criança deve ser”.
Lowen acredita que, dependendo de cada situação, devemos ou não permitir à criança que faça sua própria escolha. “Na prática, é aconselhável deixá-la agir a sua maneira sempre que possível. O que permite que a criança desenvolva o senso de responsabilidade pelo seu próprio comportamento, tendência natural de todos os organismos. Quando os esforços iniciais da criança para estabelecer um padrão de auto-regulação são mal recebidos pelos pais, os conflitos que daí surgem são de muito difícil superação. A criança com o direito de dizer não aos pais cresce, tornando-se um adulto que sabe quem é e o que quer”.
Na comunidade, temos a possibilidade de errar e acertar com nossos filhos, contando com o olhar e o feedback dos amigos. A questão não é ser mais ou menos permissivo, mas respeitar a individualidade da criança. Deve existir autoridade, mas não arbitrária, baseada no medo. A criança precisa ter confiança para expressar o que sente, seja raiva, tristeza ou amor.
Para transitarmos a uma nova civilização, são necessárias novas abordagens da vida. Os códigos e padrões tradicionais estão em colapso. Os valores e as formas sociais de relacionamento, ainda alicerçados na “tradição, família e propriedade”, não estão gerando seres humanos, mas seres robotizados para servir ao “capital”.
Voltando ao Osho, ele diz que milhares de pessoas decidiram permanecer sementes, pois é mais segura que a flor. “A flor é frágil. Pode ser destruída facilmente, basta um vento forte e as pétalas são sopradas e espalhadas. A semente é segura. Mas permanecer semente é permanecer morto. Aquele que realmente quer viver tem de aceitar o perigo. Aquele que realmente quer alcançar os picos tem que correr o risco de se perder. Aquele que quer subir os mais altos picos tem que correr o risco de cair de algum lugar, escorregar. Quanto maior o desejo de crescer, mais perigo precisa ser admitido. Por que é tão difícil se relacionar? É difícil porque você ainda não é. Primeiro seja. Tudo o mais é possível depois”.

Katia Marko é jornalista, terapeuta bioenergética e uma pessoa em busca de si mesma.
Para ler todos os seus textos publicados em Outras Palavras, clique aqui.

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